Wolverine é a prova de que o debate gamer atingiu seu ponto mais deplorável
Wolverine expõe o nível deplorável do debate gamer nas redes sociais.

A menos de um mês do lançamento de Marvel’s Wolverine, a Insomniac Games enfrenta uma onda de críticas em um debate gamer deplorável que vão desde a linearidade das missões até o design de personagens. O diretor do jogo, Mike Daly , já respondeu a essas críticas com uma calma que só quem já passou por isso antes tem.
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Mas a questão vai além do jogo. O que estamos vendo é um fenômeno cultural: a transformação da crítica legítima em ruído vazio, onde opiniões rasas ganham o mesmo peso que análises fundamentadas e a indignação se torna um fim em si mesma. No entanto, quem é que tá perdendo com isso?
Esse artigo surge como indignação e também é fortemente inspirado pela matéria de um colega de redação do Omelete, o excelentíssimo Breno Deolindo. Recomendo também a leitura da matéria dele disponível aqui.
1/7 – “Estamos bastante acostumados”
A Insomniac Games não é novata em polêmicas. A própria trilogia Marvel’s Spider-Man enfrentou seu quinhão de reclamações – desde a mudança do rosto do Peter, traje final do Miles e até as missões furtivas da Mary Jane.
Ademais, muitas dessas reclamações são plausíveis e justas. Videogame é uma forma de arte interativa, e os usuários devem considerar a interação com ela como importante.
Para Daly, a situação atual não é diferente.
“Estamos bastante acostumados” com o backlash, disse o diretor, classificando a situação como um “bom problema para se ter”.
A ideia é simples: quando um estúdio consegue construir uma base de fãs apaixonada o suficiente para se manifestar, isso é, no fim das contas, um sinal de que o projeto importa para as pessoas.
O problema é que, atualmente, a linha entre crítica legítima e ruído gratuito está cada vez mais tênue.
2/7 – O que os fãs estão criticando (e por que a maioria não faz sentido)
As reclamações, segundo o LEVEL UP, variam. Vamos analisar as principais:
- Linearidade das missões: Há quem critique a estrutura “corredor” das fases, com alguns chegando a chamar o jogo de “movie-game” que poderia ser jogado com uma mão só.
A crítica ignora que jogos lineares são celebrados pela capacidade de contar histórias mais focadas e ritmadas. God of War (2018) é linear em sua estrutura central e nem por isso deixou de ser aclamado.
Não só isso como nós não vimos praticamente nada do jogo ainda - Luta contra o Sentinela: A batalha foi alvo de piadas – com comparações ao jogo Ben 10: Protector of Earth de 2007.
A crítica parece ignorar que a luta contra um gigante em um jogo de ação é um clássico do gênero, e que a comparação com um jogo infantil é mais uma tentativa de desmerecer do que uma análise séria.
Não só isso como a gente não jogou ainda, não interagimos, não chegamos até lá. Não sabemos como é a progressão, o que nós temos são impressões de quem jogou durante 2h o jogo. Portanto, mesmo o pessoal que jogou antecipadamente, não teve acesso à versão final do jogo. - Design de Mística: A personagem foi concebida para se adaptar a diferentes situações – e sua aparência no jogo reflete isso. Reclamar de um design que ainda não vimos em seu contexto completo é julgar um livro pela capa.
- Mídia física: Há um debate sobre a importância do disco offline, mas a Insomniac não tem nada a ver com isso. Ainda que seja fundamental o debate e a exigência pelas mídias físicas, o jogo do Wolverine não tem culpa nenhuma por isso.
3/7 – O que os fãs estão criticando (e por que a maioria não faz sentido)
O que essas reclamações têm em comum? Quase todas elas ignoram o contexto mais amplo do que Wolverine se propõe a ser.
São opiniões formadas com base em trailers de dois minutos e em arquivos que foram liberados pela Sony pra ilustrar os vídeos, sem considerar o trabalho de anos de desenvolvimento.
Não obstante, um colega do Omelete que jogou essas 2h, o Breno Deolindo, confirmou que tudo o que vimos até agora não foi gameplay capturada por eles.
O que eu quero dizer com isso? Não vimos sequer pessoas diferentes, com formas diferentes de jogar e interagir com o jogo, fazendo-o. Isso faria toda diferença. As pessoas não jogam todas da mesma forma, vamo esperar pelo menos sair outras gameplays antes?
4/7 – O papel dos algoritmos na amplificação do outrage
Essa enxurrada de negatividade já havia levado, com razão, o diretor de comunicações da Insomniac, James Stevenson, a se pronunciar, afirmando que os algoritmos das redes sociais amplificam e recompensam o discurso de ódio.
Ele está certo. Quanto mais indignada uma opinião parece, mais engajamento ela gera. O resultado é um ciclo vicioso em que a crítica se torna um fim em si mesma, e não um meio para melhorar o jogo.
Porém, isso infelizmente tem consequências muito ruins para nós, jogadores.
Afinal, não é a intenção desse artigo colocar panos quentes e defender um jogo “ruim”. Embora eu seja sim um grande fã da desenvolvedora e, apesar de achar seus jogos do Homem-Aranha incríveis, nem eles saem incólumes de críticas e todos eles precisam melhorar muito em diversos outros aspectos, como eu citei anteriormente e voltarei a citar em outras matérias.
Num espaço inundado de críticas vazias, ocas e estúpidas, nós jogadores com bom senso perdemos, de forma coletiva, a nossa credibilidade para feedback e, o pouco feedback construtivo que poderia ser levado em consideração se chegasse aos desenvolvedores, se perde no meio do discurso raso, volumoso, barulhento e ruidoso.
Além disso, as plataformas digitais são projetadas para priorizar conteúdo que provoca reações fortes – e a indignação é uma das emoções mais fáceis de explorar.
O que começa como uma crítica legítima rapidamente se transforma em uma bola de neve de desinformação e exagero que, por consequência, se transforma em um Efeito Manada onde qualquer capacidade de raciocínio crítico se perde.
5/7 – A estupidez como escolha
O que mais incomoda, no entanto, não é a crítica em si. É a escolha consciente de ignorar informações disponíveis para manter uma posição inflexível.
Críticas fundamentadas – sobre mecânicas, ritmo ou narrativa – são bem-vindas. Elas enriquecem o debate e ajudam a indústria a evoluir. O que não é aceitável é o esvaziamento do discurso, onde 90% das reclamações são, no sentido mais puro da palavra, estúpidas.
São opiniões de pessoas que têm acesso à informação, poderiam argumentar com profundidade, mas preferem o caminho mais fácil: a indignação vazia.
É mais fácil reclamar do design de um personagem do que entender o contexto narrativo por trás dele. Também é fácil comparar uma luta com um jogo de 2007 do que analisar a mecânica de combate.
É facílimo reclamar que os X-Men ainda não existem nesse mundo e falar sobre o quanto a Insomniac odeia os mutantes do que lembrar que esse é um NOVO UNIVERSO com diversas coisas que nós AINDA não sabemos e que podem, ou não, estar nos planos da desenvolvedora pra, quem sabe, termos um jogo inteiramente focado nos X-Men.
6/7 – E se…?
No entanto, tentemos uma proposta.
E se a gente simplesmente esperasse o jogo sair pra ver quais são as idéias propostas pelo estúdio? Tudo bem você não gostar e não querer pagar os salgados 400 reais no jogo, eu entendo perfeitamente. Mas que tal a gente pelo menos esperar as gameplays das pessoas? As reviews do Youtuber ou do Site que você acompanha e confia?
Eu não tô nem pedindo pra você comprar o jogo e experimentar, mas só espera lançar, vê as gameplay, vê a história no Youtube e tal, mas pelo amor de Odin, faz isso não.
A estupidez, nesse caso, não é falta de inteligência. É falta de vontade. Uma recusa deliberada em engajar com a complexidade do que está sendo apresentado.
6/7 – O que realmente está em jogo
Apesar do barulho, Daly não pretende mudar o curso do jogo. Ele afirmou que a Insomniac pode fazer um “ótimo jogo que muitas pessoas amam”, mas ainda assim alguns vão “encontrar o que reclamar”.
“E fico tranquilo quanto a isso, sabendo que nosso objetivo para o jogo não era necessariamente atender a essas reclamações. Nosso objetivo era focar completamente em fazer o melhor jogo para o personagem”, disse o diretor.
A confiança de Daly é sustentada pelo histórico do estúdio. A Insomniac já passou por críticas semelhantes com Homem-Aranha e saiu com títulos aclamados.
A verdade é que o debate sobre Wolverine expõe uma questão mais profunda: a cultura do entretenimento atual parece ter perdido a capacidade de esperar e avaliar.
Formamos opiniões definitivas e imutáveis com base em trailers de dois minutos, ignoramos o trabalho de anos e tratamos cada escolha criativa como se fosse um ataque pessoal.
Marvel’s Wolverine chega ao PS5 em 15 de setembro. Até lá, o jogo será julgado por aquilo que é – e não pelo que os haters imaginam que ele é.
E aí, você acha que as críticas a Wolverine são justificadas ou fazem parte do processo? Conta pra gente nos comentários e continue acompanhando o Legado da Marvel para mais novidades.