Marvel Studios e o conceito de estratégia

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Há alguns dias a Universal Studios anunciou o seu Dark Universe, o universo cinematográfico do qual farão parte a Múmia, Mr. Hyde (personagem do clássico O Médico e o Monstro), o Homem Invisível, o monstro de Frankenstein (não se enganem, Frankenstein é o nome do cientista que fez a criatura) e sua amada noiva, além dos ainda não anunciados Lobisomen e Monstro da Lagoa Negra, que faziam parte dos filmes clássicos do estúdio, e de alguns personagens que não são necessariamente monstros, como o Corcunda de Notre Dame e o Fantasma da Ópera.

 

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Vale lembrar que muito tempo antes dos fãs da Marvel sonharem  com o MCU, a Universal já havia levado pras telas um mundo compartilhado por essas criaturas. O primeiro filme dessa arriscada aposta estreou na última quinta-feira (08/06) e conta com a presença de Tom Cruise, Russell Crowe e Sofia Boutella.

 

 

Mas espera, você não sentiu falta de ninguém? Leia com calma os nomes citados de novo… Ué, cadê o Drácula? Lançado em 2014, Drácula – A História Nunca Contada era pra ter sido o primeiro passo desse mundo habitado por monstros que o estúdio de Velozes e Furiosos planeja estabelecer. O longa já deixava tudo encaminhado para o desenvolvimento dos capítulos fuuross, com até mesmo uma espécie de Nick Fury diabólico, interpretado pelo ator inglês Charles Dance, que seria responsável por dar os poderes (ou seriam maldições?) aos protagonistas. Só que a arrecadação dele não agradou os executivos do estúdio, que optaram por abandonar a ideia. Há quem diga que Luke Evans, o Drácula do longa, ter saído do armário também teria influenciado na decisão, só que por enquanto isso é apenas boato.

 

Então beleza, agora o Dark Universe está estabelecido e é só esperar os filmes serem lançados, né? Mais ou menos. Sabe quando o próximo a franquia terá continuidade? Só em 2019, com a refilmagem de A Noiva de Frankenstein. Ou seja, se você gostar do universo apresentado em A Múmia só poderá voltar a visitá-lo daqui dois anos. E vamos combinar, dois anos no mundo de hoje, em que todos somos bombardeados com todo tipo de informações, em que novos blockbusters são lançados toda semana, em que as pessoas assistem séries inteiras em questão de dias, é muito tempo. Até lá as pessoas já terão se esquecido do que viram. Como se isso já não fosse problema, Johnny Depp, que tem o seu nome cada vez mais atrelado a polêmicas, será o Homem Invísivel, do filme de mesmo nome. E como a bilheteria do último Piratas do Caribe e das produções mais recentes estreladas pelo ator acabaram provando, o público parece já ter se cansado dele e de seus trejeitos. Parece que alguém não andou se planejando direito.

 

 

Claro, a Marvel ficou 1 anos sem nenhum lançamento. Isso rolou em 2009, há quase 10 anos atrás. Mas vamos admitir, eram outros tempos. Em 2009 a Netflix ainda não havia se popularizado,  o Facebook ainda engatinhava, o conceito de youtubers ainda não havia surgido, enviar correntes pelo WhatsApp ainda era algo inimaginável e nem havia tantas franquias de cinema quanto hoje. Resumindo: era muito menos informação para as pessoas lidarem. Fora que em 2008, o MCU já tinha lançado dois filmes (Homem de Ferro e O Incrível Hulk), o que era irreal pros padrões da época, então a galera da Marvel podia se dar ao luxo de ter uma folguinha em 2009.

 

Não podemos esquecer que a Marvel também já tentou a sorte com um ator que era sinônimo de problema, como foi o caso de Robert Downey Jr., figura frequente nos tabloides sensacionalistas devido às suas prisões e às suas internações em clínicas de reabilitação. No entanto, o caminho trilhado pelo intérprete de Tony Stark é visto por muitos como uma inspiradora história de superação, enquanto o de Depp, que durante muito tempo foi um dos astros mais queridos pelo público, talvez seja encarado como um declínio sem volta. Desde a escolha de Robert, a Casa das Ideias tem preferido escolher nomes mais seguros e comportados, como Chris Evans, Chris Pratt e Benedict Cumberbatch, ator elogiado e reconhecido por público e crítica.

 

Um mau começo

 

Agora voltemos aos problemas de calendário. O DCEU (DC Extended Universe) pode ser considerado o 3° universo cinematográfico melhor estabelecido da atualidade, não podemos esquecer o de Star Wars, que está a todo vapor deve ter o seu terceiro spin off confirmado ainda esse ano. Em exibição há pouco mais de uma semana, Mulher-Maravilha já é um sucesso absoluto, arrebatou profissionais da área e o grande público, além de ter feito uma estreia bastante lucrativa. Só que nem tudo são rosas na franquia do Batman, Superman e da galera da Liga da Justiça. Na verdade, essa pode ser a primeira rosa em um buquê de flores murchas.

 

Comecemos pela começo, ou seja, Homem de Aço. Após o fim da Trilogia Cavaleiro das Trevas, Christopher Nolan se negou a seguir adiante com a história do Homem Morcego e a ligar aquela realidade com qualquer outros heróis. O que faz total sentido se levarmos em conta que a franquia protagonizada por Christian Bale era extremamente pé no chão, não deixando brecha para a participação de qualquer outro personagem da Detective Comics. A saída então foi dar início a uma nova franquia, cujo pontapé inicial seria dado pelo primeiro herói da editora, o último filho de Krypton, ele mesmo, o Superman. Na época poucos imaginavam que aquela era a estreia do DCEU nos cinemas, apesar do logo das Indústrias Wayne poder ser visto aqui e ali durante a projeção.

 

 

Mesmo sendo protagonizado pelo herói mais importante de todos (eu sou um fã de carteirinha da Marvel, mas não sou louco de negar a importância do menino Kal-El), o longa acabou não decolando. A arrecadação ficou por volta dos US$ 660 milhões, bem abaixo do potencial do azulão. E não venha com esse papo de “Ah, tá bom pra um início de franquia”, porque não, não tá.  Só pra servir de exemplo, Jurassic World e Frozen, que não têm nem metade da fama do Clark, conseguiram bilheterias bem maiores. A recepção do público também não foi motivo de orgulho, pois foi bastante mista. Uns contentes por poderem ver o verdadeiro potencial do Superman na telona, com lutas épicas dignas dos melhores episódios de Dragon Ball Z, e outros descontentes por causa da destruição causada pelo herói e pelo tom mais sisudo em relação às outras produções do gênero.

 

Depois de resultados tão mornos, a saída foi apelar. Eis que na San Diego Comic Con 2013, Zack Snyder anuncia Batman v Superman, o filme que encheria de esperanças o coração dos fãs da DC. Os dois maiores heróis da editora iam finalmente se encontrar no mesmo filme, e como o título indicava, não seria um encontro amigável. Só que aí temos um problema: entre Homem de Aço e Batman v Superman há um intervalo de 3 anos. Três anos sem um filme, sem um curta-metragem, sem nada. Três anos que, se o estúdio tivesse se planejado melhor, poderiam ter sido preenchidos com filmes do Flash, da Mulher-Maravilha, do Aquaman, dos Jovens Titãs ou de quaisquer outros personagens. Mas não, os fãs tiverem que se contentar com fotos de bastidores, boatos de produção e, é claro, trailers.

 

E a demora parece não ter valido tanto a pena. Batman v Superman foi massacrado pela crítica especializada, que apontou como principais defeitos o excesso de elementos na trama e os vários buracos no roteiro. O público, com exceção de alguns fãs da editora, também não ficaram muito felizes, o que acabou refletindo numa bilheteria abaixo do esperado. Sim, o longa dirigido por Zack Snyder teve uma estreia surpreendente, conseguindo a soma de US$ 424 milhões. Só que logo em seguida a bilheteria teve uma das maiores quedas já registradas, perdendo 69% de seu público,quando o normal é algo entre 45% ou 55%. Em decorrência desse abandono dos espectadores, a bilheteria final do longa foi de “apenas” US$ 873 milhões, o que seria uma ótima quantia para qualquer filme, mas aquém da capacidade de uma produção que juntava Batman, Superman e ainda trazia a Mulher-Maravilha de brinde. Não dá pra negar que o estúdio almejava pelo menos US$ 1 bilhão de arrecadação com algo desse porte

 

 

Isso, somado ao inesperado sucesso de Deadpool, fez o estúdio “ajustar” Esquadrão Suicida, que estava a poucos meses de seu lançamento. O drama dos bastidores é longo, mas pra resumir o que rolou, basta dizer que os produtores adicionaram mais cenas cômicas e pediram pra Trailer Park, responsável pelo excelente trailer sincronizado com Bohemian Rhapsody, editar o filme. O final da história todo mundo conhece. Esquadrão Suicida foi “coroado” como uma das piores adaptações de quadrinhos já feitas. Arlequina e seu bando até conseguiram juntar uma boa grana, mais de US$ 700 milhões no mundo inteiro, no entanto essa quantia se deve mais ao fato de terem ficado quase dois meses em cartaz sem nenhuma concorrência do que pelo entusiasmo dos espectadores.

 

Para aumentar a dor de cabeça dos dcnautas, algumas adaptações entraram em modo stand-by, como é o caso de Flash, que já perdeu um bom número de diretores, e The Batman, que foi desfalcado com a saída de Ben Affleck da direção e cujo roteiro está sendo reescrito. A cereja do bolo são os filmes que foram anunciados, mas que até o presente momento não têm nem data de lançamento muito e nem previsão para o começo das filmagens, como é o caso de Sereias de Gotham, Homem de Aço 2, Tropa dos Lanternas Verdes, Asa Noturna, Batgirl, Liga da Justiça Sombria, Ciborgue e Adão Negro (e/ou Shazam, já que até agora não ficou muito claro se o vilão terá um filme próprio e o herói terá outro ou se será tudo uma coisa só). O único que deu um sinal de vida recentemente foi Esquadrão Suicida 2, só que não por meio de um comunicado oficial, e sim através de uma entrevista onde um dos atores do longa original comenta que as filmagens devem começar ano que vem.

 

 

É claro que depois do sucesso de Mulher-Maravilha muitas novidades devem ser anunciadas em breve, ainda mais com a San Diego Comic Con 2017 vindo por aí, só que é triste ver personagens e histórias tão clássicos envoltos numa nuvem de incerteza causada pela desorganização do próprio estúdio. Esperamos que tudo se ajeite e que no futuro possamos ver produções dignas desse panteão.

 

O jeito Marvel de fazer as coisas

É fã das produções da Marvel Studios? Então tem um cara que você precisa agradecer. O nome dele é Kevin Feige, que, acompanhado do seu inesperável boné, conseguiu estabelecer o MCU nos cinemas. Mais do que isso: o cara tem planejado cada novo passo que estúdio dará nos próximos anos. Em entrevistas ele já disse possuir uma linha do tempo detalhada de tudo que vai acontecer no MCU, que pode ser alterada conforme esse ou aquele personagem faço mais sucesso ou caso os direitos de um personagem voltempra Casa das Ideias. Quer um exemplo? O Homem-Aranha deu as caras em Capitão América: Guerra Civil, no entanto caso as negociações com a Sony não tivessem seguido em frente, o filme ainda assim iria acontecer e o universo cinemático da Marvel teria seguido o seu caminho sem nenhum problema.

 

 

E diferente dos seus planos de fazer academia e entrar em forma, o planejamento de Kevin Feige é a longo prazo. Em 2014, durante uma entrevista para o site Bussiness Week, Feige disse que possuía uma lista de filmes da Marvel que ia até 2028! Bom, estamos em 2017, nesses três anos muita coisa aconteceu, é provável que mais projetos tenha sido adicionados à lista, como o tal Universo Cósmico da Marvel nos cinemas, que também está sendo planejado por James Gunn.

 

Só que essa é apenas uma das peças que forma o quebra-cabeças do sucesso do MCU, também valendo mencionar a identidade dos filmes da Marvel. Aquilo que muitos chamam pejorativamente de “filmes para crianças” nada mais é do que uma série de blockbusters que não têm vergonha de serem blockbusters. Eles são leves, acessíveis, podem ser vistos por toda família e, o mais importante, divertidos. Afinal, se você se divertir com um filme, não vai querer indicá-lo para os seus amigos? E não é por que a Fox ou qualquer outro estúdio fez sucesso com adaptações mais pesadas e sangrentas que a Marvel Studios vai mudar o seu posicionamento. Mesmo se alguém, que nunca tocou numa revista em quadrinhos em toda vida, pegar um deles passando na TV em um domingo ocioso, será fácil saber que se trata de um filme do MCU. Para o bem ou para o mal, isso não vai mudar tão cedo.

 

Talvez a melhor comparação seja com a Apple. Quando uma pessoa adquire um produto da empresa da maçã ela já sabe o que vai encontrar dentro da caixa: um aparelho com um design diferente dos demais e um sistema operacional exclusivo (eu juro que não fui pago pra escrever essa frase, foi só para efeito de comparação mesmo). Não por acaso, muitos dizem que abrir a caixa de um iPhone é uma experiência (alô, Apple, manda uma grana pra galera do Legado). Com a Marvel é a mesma coisa. Os filmes possuem características que permitem ao público identificá-los como pertencentes à grife de Kevin Feige. Ao longo de sua evolução, o Marvel Cinematic Universe foi destacando pontos que passaram a fazer parte de todas as suas obras, como design de produção, a paleta cromática super colorida, as cenas pós-créditos  e o bom humor do seus personagens. Como dito anteriormente, é uma grife, o logo do Marvel Studios no começo é a etiqueta e as produções são as peças de roupa.

 

 

Entretanto, não podemos negar que houveram alguns tropeços pelo caminho, valendo citar a saída de Edgar Wright da direção de Homem-Formiga, a substituição de Edward Norton por Mark Ruffalo, a retirada do reator arc do peito de Tony Stark em Homem de Ferro 3 e o cancelamento do filme dos Inumanos. Uma boa parte desses deslizes se deu porque antes Kevin Feige tinha de responder a Ike Permultter, um desses executivos que fica atrasando a vida dos criativos e que gosta que tudo seja feito do jeito dele. Hoje, felizmente, o cara saiu da jogada, permitindo que Feige coloque seu planejamento em prática e e dando total liberdade aos diretores e roteiristas.

 

Como vocês podem ver, todo esse cuidado resultou no que temos hoje, a maior e mais lucrativa franquia da história do cinema, construída com muita calma ao longo dos últimos anos. Tudo pensado nos mínimos detalhes: os atores, a data de lançamento dos filmes, o que será mostrado em cada cena pós-créditos e até mesmo os easter eggs. Todos esses elementos convergiram para a criação de um universo coeso. E para fazer isso se tornar realidade, foi preciso mais do que boas ideias, foi preciso estratégia. Entendeu, zero-cinco? Espero que dessa vez o senhor não esteja dormindo.

Comenta aí, Marvete!

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