O que Magnum revela sobre pertencimento na indústria do entretenimento

Em um bate-papo para o Legado da Marvel, o dublador Renato Caetano reflete sobre os impactos da série Wonder Man, ou Magnum no Brasil.

O que Magnum revela sobre pertencimento na indústria do entretenimento

Por Camila Amaral – A chegada de Wonder Man, ou Magnum, como é chamado no Brasil, ao Disney+ apresenta um recorte pouco comum dentro do catálogo da Marvel Studios. Em vez de partir do heroísmo épico, a série direciona seu olhar para os bastidores da indústria do entretenimento ao acompanhar Simon Williams, o Magnum, um ator tentando se firmar em Hollywood.

Mais do que uma narrativa de origem tradicional, a produção aposta em uma lógica metalinguística ao explorar testes, relações profissionais, imagem pública e as pressões de uma carreira construída sob validação constante. O foco deixa de ser apenas o poder e passa a ser o pertencimento.

Essa abordagem abre espaço para leituras que ultrapassam o campo da ficção.

Para o ator e dublador Renato Caetano, responsável por dar voz ao personagem no Brasil, a construção de Magnum ganha uma dimensão simbólica quando observada a partir de sua própria trajetória. Segundo ele, uma das escolhas mais potentes da série está justamente na reconfiguração do herói.

“Vale destacar a escolha da Marvel em colocar esse super-herói, que já existia, numa nova roupagem e escalar um ator negro para um personagem que nos quadrinhos era branco”, destaca Renato.

Renato Caetano na nossa sessão de Magnum no escritório da Disney

Embora a série não trate a questão racial de forma explícita em sua dramaturgia, a identificação surge a partir das camadas subjetivas da narrativa. A trajetória de um ator tentando se sustentar em um sistema majoritariamente branco ecoa em vivências concretas de quem busca consolidar seu espaço.

Renato explica que essa conexão não acontece apenas pela temática, mas pela sensação constante de validação que atravessa sua própria trajetória.

“Essa história também dialoga com a minha vida enquanto artista negro brasileiro tentando fincar a sua carreira. É um jogo que parece que nunca está ganho”, afirma.

Outro aspecto que chama sua atenção é a tensão entre potência e contenção que estrutura o personagem ao longo da série. A ideia de que existir plenamente, em determinados espaços, pode significar risco profissional é um elemento que ele reconhece de imediato.

“É exatamente nesse lugar que mora a potência dele. Mas é um poder que ele não pode mostrar totalmente, porque senão ele não trabalha nesse sistema”, analisa o dublador.

Essa leitura reforça como Wonder Man desloca o conceito tradicional de força. Aqui, o conflito não está apenas no combate físico, mas na negociação constante entre identidade, imagem e sobrevivência dentro da indústria.

O paralelo entre personagem e intérprete se intensifica também no processo de dublagem. À medida que Magnum amadurece na narrativa, Renato percebe que sua interpretação vocal acompanha esse crescimento dramático.

“O processo de emancipação dele na série foi um processo em que eu também fui ganhando força por ser meu primeiro grande personagem na dublagem”, relembra.

O resultado é uma aproximação natural entre personagem e intérprete, em que o crescimento de Magnum ao longo da série acompanha também o ganho de segurança vocal de Renato.

Disponível no Disney+, Wonder Man integra o selo Marvel Spotlight e aposta em uma abordagem mais intimista dentro do universo do estúdio, ampliando o olhar sobre quem são e como se constroem os heróis dentro e fora da ficção.

Apaixonado pela Marvel desde que assisti Homem de Ferro 2 no cinema. Desde 2010, passei a ler, assistir, jogar e discutir tudo o que envolve Marvel. O amor é tão grande que sempre quis compartilhar com outras pessoas, e aí criei o Legado da Marvel em 2017.
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