[CRÍTICA] Demolidor Renascido – 2° Temporada: A melhor temporada do herói

Demolidor Renascido surpreende com sua melhor temporada até agora, mas uma escolha polêmica pode dividir os fãs. Entenda na crítica.

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Poucas séries carregam um peso tão grande nas costas quanto Demolidor: Renascido. Seja pela herança direta da fase anterior do personagem ou pela expectativa de finalmente ver uma continuidade à altura dentro desse novo momento da Marvel, a produção chega cercada de olhares atentos e uma certa desconfiança no ar.

Depois de uma primeira temporada que dividiu opiniões, a pergunta que ficava era simples: será que a série ainda tinha fôlego pra se reinventar? Ou melhor, ela precisava se reinventar?

1/14 – Um retorno sob pressão (e desconfiança)

1/14 – Um retorno sob pressão (e desconfiança)

Se tem uma coisa que eu definitivamente não esperava quando comecei essa segunda temporada (ou quinta, se a gente quiser ser honesto) foi passar 50 minutos de coração acelerado ao assistir um dos episódios.

Porque, vindo de um primeiro ano bem irregular, bom, mas cheio de ressalvas, minhas expectativas estavam lá embaixo.

Não achava que ia ser horrivel, mas estava bem indiferente e, sendo um leitor assíduo dos quadrinhos do Demolidor, não digo isso com alegria.

Contudo, olhando em retrospectiva, a primeira temporada precisava existir daquele jeito para que tivéssemos essa segunda temporada. Precisávamos ser introduzidos àqueles personagens, seus dramas, dilemas e etc.

Só que aqui a série faz exatamente o oposto: começa mais contida, quase paciente demais nos dois primeiros episódios, e de repente engrena de um jeito absurdo.

Entregando uma sequência de capítulos cada vez mais intensos até chegar em um final simplesmente antológico, daqueles que entram fácil pra história da Marvel.

2/14 – Poder, controle e o verdadeiro inimigo

A segunda temporada de Demolidor: Renascido acerta em cheio ao continuar e aprofundar uma das ideias mais interessantes do primeiro ano: as consequências de ter Wilson Fisk como prefeito de Nova York.

A partir da criação do ICE, quer dizer, da AVTF (Força-Tarefa Anti-Vigilantes), a série constrói sua base temática explorando algo que vai muito além da caça a heróis mascarados.

Porque, no fim das contas, o discurso “anti-vigilante” funciona muito mais como uma cortina de fumaça.

O que Fisk realmente cria é um sistema que legitima a brutalidade policial, dando carta branca para que sua força atue sem qualquer tipo de consequência sob o pretexto de “manter a cidade segura”.

3/14 – Quando o alvo deixa de ser o vigilante

E a série deixa isso claro de forma gradual e incômoda: primeiro vêm os vigilantes, depois qualquer pessoa associada a eles… até que, de repente, o impacto começa a atingir gente comum.

Curiosamente não é qualquer gente comum, mas especialmente os povos imigrantes, a população negra, a parcela mais pobre dessa sociedade em geral.

Esse efeito dominó é onde a narrativa ganha força.

Comércios fechando, ruas esvaziadas e uma população cada vez mais acuada ajudam a construir uma Nova York sufocada pelo medo, mas na propaganda, Nova York não podia estar mais brilhante e radiante.

Em um dos momentos mais emblemáticos, uma cidadã é presa simplesmente por encostar em um agente da AVTF, que usa a justificativa de “agressão a um oficial” para detê-la, mesmo sem qualquer ligação com vigilantes.

Em um mundo onde a gente vê, de forma televisionada, policiais matando brutalmente inocentes dentro de suas próprias casas, a série é até leve em retratar isso, né?

4/14 – A cidade reage: resistência e símbolo

4/14 – A cidade reage: resistência e símbolo

No entanto, a cidade não está indefesa, ela tem seus protetores e pode não ter nenhum anjo, mas ela tem seu Diabo da Guarda. A cidade luta de volta tendo o Demolidor na linha de frente junto com todos que podem ajudá-lo.

A partir daqui a série desenvolve seus temas de rebeldia e luta por justiça, mas o que brilha com mais fulgor é a luta coletiva, a união do povo de Nova York inteiro em um único símbolo, o símbolo do Demolidor.

Mais do que um herói, ele se torna o ponto de convergência de uma luta coletiva. A série deixa claro que não existe um “salvador” isolado, mas sim uma população que, aos poucos, encontra força na união.

E é justamente nessa construção, da rebeldia, da justiça e do peso de um símbolo, que Renascido mostra que sabe exatamente que história quer contar.

5/14 – Um roteiro sem gordura e cheio de impacto

No quesito roteiro, Demolidor: Renascido refaz algo que incomodou bastante algumas pessoas na primeira temporada: conta uma história coesa do começo ao fim.

Não existem episódios “filler” aqui, cada capítulo tem peso real dentro da trama e empurra a narrativa pra frente, resgatando aquele modelo mais fechado e consistente que marcou as primeiras temporadas.

Então podem ficar tranquilos em assistir o episódio semanal dessa vez, vocês não estarão desperdiçando tempo precioso, cada episódio vale a pena ser visto.

6/14 – Ritmo, imprevisibilidade e ousadia

E isso se conecta diretamente com o ritmo. A série sabe exatamente quando pisar no freio e quando acelerar. Os 2 episódios iniciais são mais contidos, construindo com calma as bases do conflito e posicionando cada peça no tabuleiro.

Mas, a partir do momento em que tudo está estabelecido, a narrativa simplesmente dispara.

E o mais interessante é que ela nunca se torna previsível, pelo contrário, existe uma constante sensação de que qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento e acontece, inclusive aquilo que parecia improvável demais pra ser levado a sério.

Esse tipo de escolha narrativa naturalmente traz momentos de estranhamento, mas não por erro e sim por ousadia. A temporada toma decisões extremamente corajosas, daquelas que chocam num primeiro instante e até parecem irreais de tão impactantes.

Só que, quando você para pra analisar, tudo faz sentido dentro da lógica da história, e essas escolhas acabam gerando consequências pesadas que reverberam ao longo da trama.

Inclusive, uma delas é como soltar uma bomba atômica no mundo do Demolidor.

7/14 – Personagens: entre evolução e protagonismo roubado

Quando o assunto são personagens, Demolidor: Renascido mostra que sabe muito bem onde colocar seu foco.

No centro de tudo, claro, está o próprio Demolidor, mas a temporada acerta ao dividir esse protagonismo com figuras essenciais como Karen Page e Wilson Fisk, mantendo o conflito sempre vivo e bem sustentado.

Ao redor deles, nomes como BB Urich, que melhora bastante nessa temporada, e até a participação pontual de Jessica Jones ajudam a expandir o mundo da série, enquanto o personagem vivido por Matthew Lillard surge como uma peça curiosa, especialmente por aparentar ter conexões maiores com o futuro do MCU.

Vale mencionar também a evolução da Psiquiatra Heather, a ex do Demolidor, na primeira temporada.

8/14 – O verdadeiro MVP da temporada

8/14 – O verdadeiro MVP da temporada

Nem todos, porém, recebem o mesmo cuidado. Personagens como o Detetive Cherry e Kirsten acabam soando mais funcionais do que memoráveis, quase como peças usadas para preencher lacunas específicas da trama.

Mas sinceramente, esses aqui nem fede nem cheiram, pode continuar do jeito que tá.

Karen Page ganha ainda mais profundidade, Vanessa Fisk assume um papel mais ativo e interessante, e até figuras como o Bushman se beneficiam de uma evolução consistente ao longo da história.

Ainda assim, existe um nome que se destaca acima de todos.

O Mercenário é, sem dúvida, a grande surpresa e talvez o maior acerto da temporada. Mais do que roubar a cena, ele se torna peça-chave para os momentos mais memoráveis, legais, divertidos e impactantes da narrativa.

É graças a ele que a série tem o fator de imprevisibilidade e que tudo pode acontecer, funcionando quase como um catalisador de tudo que acontece de melhor na série.

Mesmo com um protagonista tão forte quanto o Demolidor, é difícil não reconhecer que aqui o verdadeiro MVP tem outro nome.

E falando como um fã de quadrinhos, eu odeio o Mercenário, ele é uma figura repugnante nos quadrinhos embora seja interessante, mas aqui, é impossível não gostar do desgraçado, especialmente porque o Wilson Bethel vomita carisma em tela.

Ele é magnético, faz você querer mais dele em tela. Eu adoraria ver esse personagem ganhando mais destaque e talvez até mesmo entrando pros Thunderbolts* (ou seriam Os Novos Vingadores?).

9/14 – Direção e identidade visual: estética com propósito

Na direção, Demolidor: Renascido reforça uma identidade visual que remete diretamente à fase da Netflix, mas sem parecer presa ao passado.

Existe uma continuidade estética clara, só que agora mais refinada e consciente do que quer transmitir em cada cena.

Isso fica evidente principalmente no uso de cores.

A série trabalha com uma paleta muito bem definida para representar seus personagens e conflitos: o vermelho e o azul dominam os momentos ligados ao Demolidor e ao Mercenário, criando um contraste quase simbólico entre suas presenças em cena.

Já quando o foco está em Fisk, o branco toma conta, um visual mais limpo, quase estéril, que reforça a ideia de controle, poder e uma falsa sensação de ordem.

Mas o grande destaque da direção está em como ela participa ativamente da narrativa.

A forma como a série manipula enquadramentos e até o aspect ratio em momentos específicos ajuda a colocar o espectador dentro da experiência do Demolidor, traduzindo seus sentidos e sua percepção de mundo de forma criativa e imersiva.

No fim, é uma direção que não está ali apenas para “deixar bonito”, mas para contar história junto com o roteiro e faz isso com bastante personalidade.

10/14 – O preço do realismo

Nem tudo são flores e, embora eu ainda ache que essa seja a melhor temporada de Demolidor até então, ela tem alguns defeitos e, eu acho que a maioria deles são questões pessoais.

Então o que eu vou apontar em seguida pode ou não ser um defeito pra vocês.

Os maiores problemas dessa série estão ligados à sua escolha de linguagem. Ela escolhe ser muito realista, crua e visceral e, infelizmente, eu acho que isso prejudica muita coisa.

Como supracitado, eu falei que sou um grande fã dos quadrinhos do personagem e me incomoda ver algumas representações dele na série.

A que me refiro? O Demolidor é treinado pelo Stick e é treinado pra ser um super ninja foderoso.

Essa parte de sua história foi abordada na série anteriormente, mas ainda assim, o personagem parece impedido de exibir suas qualidades como um ninja, porque a série não permite que o Demolidor se exiba como um verdadeiro super-herói.

É como se a série se envergonhasse de ser uma série de Super-Herói.

11/14 – Limitações do herói em ação

Nos quadrinhos e em desenhos, podemos ver o Demolidor saindo na mão contra 30 ninjas treinados e vencendo. Na série, ele sai na mão contra 3 caras e ou apanha igual um condenado ou é nocauteado.

Eu não me importo que ele apanhe, o problema é que qualquer coisa parece derrubá-lo quando o roteiro precisa, quando, na verdade, ele tem capacidade pra ser e fazer muito melhor do que isso, afinal, ele não está ferido nem nada assim.

Isso parece uma reclamação boba, mas isso nos impede de ter ótimos momentos com o personagem, porque não é um problema que surge só nas lutas.

Não temos NENHUMA cena de parkour com o Demolidor como tivemos na primeira temporada, por exemplo. Nenhuma cena dele pulando pelos prédios, usando seu gancho, dando suas piruetas com poses icônicas.

Mas tudo isso é escolha da linguagem da série e, infelizmente, isso faz com que até seja realista, mas peca muito em imersão e diversão.

Contudo, isso causa mais problemas e consequências.

Pelo fato da série escolher um tom mais realista e menos super-heróico, isso atrasa em muito várias coisas da trama. Como a gente não vê o Matt sendo habilidoso, ágil e sorrateiro, nós também não vemos nenhum momento heróico secundário.

Além disso, por ele parecer menos capaz e dotado de resolver as coisas, muita coisa na trama demora pra acontecer porque o Demolidor é incapaz de resolver as coisas direito.

12/14 – A narrativa enfraquece o protagonista

12/14 – A narrativa enfraquece o protagonista

Por mais que eu saiba que essa temporada busca reforçar a mensagem do esforço coletivo e da união, seria mais verossímil se ela de fato criasse situações onde o Demolidor precisa de mais ajuda ao invés de reduzir o personagem como se ele não tivesse essa capacidade.

Por exemplo: não temos nenhuma cena em que o Demolidor impede algum abuso policial em andamento e salva algum cidadão desconhecido, ele ajudando alguém que precisa enquanto está indo fazer alguma coisa principal, o tipo de coisa que a gente veria o Homem-Aranha fazer enquanto está patrulhando.

As cenas de ação são boas, mas elas não carregam a identidade do Demolidor de verdade, elas carregam a identidade da versão da Netflix.

O que é inconsistente considerando outros 2 personagens da trama: o Mercenário e Wilson Fisk. As melhores cenas de ação envolvem o Mercenário. Ele mata quem ele quiser usando qualquer objeto que esteja ao seu alcance, QUALQUER UM mesmo.

Ele é claramente irrealista e “super” de alguma forma, e é muito divertido e imersivo ver ele realizando seus feitos.

Do outro lado, temos Wilson Fisk, que na temporada passada rasgou e explodiu a cabeça de uma pessoa usando as próprias mãos, um brutamontes que levou um tiro na cara à queima-roupa e sobreviveu de boa, que mata pessoas com UM ÚNICO SOCO, capaz de enfrentar hordas de pessoas.

Embora não tenha poderes, ele é claramente “super” também.

Ora pois, se a série adota essa linguagem irrealista pro Mercenário e pro Fisk, por que não adotar pro Demolidor também? Afinal, pau que bate em Chico bate em Francisco.

Se essa é uma escolha da produção, deveria valer pra todos os personagens e circunstâncias da série.

13/14 – Personagens subaproveitados

Por fim, tem a outra personagem, a Tigresa Branca, sobrinha do Tigre Branco, que supostamente tem poderes que vêm do amuleto.

Mas, como a série se recusa a mostrar e adotar esse lado super-heróico, tanto faz como tanto fez ela ter o amuleto ou não.

No fim, ela é tão dotada e poderosa quanto a Karen Page, que treina uns 10 minutos espancando um boneco de madeira, mas isso já torna ela capaz de derrubar alguns agentes do Fisk.

14/14 – Um final amargo, poderoso e inesquecível

No fim, ainda que imperfeita como toda forma de arte, essa temporada termina de forma lendária e poética.

Toda sua construção narrativa culmina em um último episódio sensacional e inesquecível. Além de concluir todo o debate levantado e discutido sobre liberdade, abuso de poder e corrupção, também nos faz questionar através de um final amargo, o que é a verdadeira vitória e qual lugar ocupam os vitoriosos.

O que é vencer e qual é seu verdadeiro custo quando se fala da liberdade e bem-estar coletivo? Quais são as linhas que valem a pena cruzar numa luta como essas? Quando colocados contra a parede, vale a pena sucumbir à solução mais fácil e imediata? O que faz um herói e quando um sacrifício não é uma perda?

Demolidor termina nos fazendo muitas perguntas dos quais não se interessa em responder e, sinceramente? Nem deve.

Foi por causa dessas perguntas e do sabor amargo, mas delicioso, do final dessa temporada que essa série ficou comigo, que me fez questionar e desejar tanta coisa envolvendo esses personagens.

É com muita satisfação e orgulho que eu posso dizer que é isso tudo que faz dessa a melhor temporada de Demolidor. Sim, mesmo em relação a terceira, eu ainda acho essa a melhor.

Nota: 4/5

Victor Palácio
Sou designer, editor, game designer e escritor movido por curiosidade, humor e caos criativamente organizado. Gosto de dar vida a ideias, criar mundos, contar histórias, me aprofundar nos tópicos mais improváveis e transformar qualquer projeto em algo que tenha alma. Trabalho com seriedade, mas sempre deixo espaço para experimentação e autenticidade.
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